


Imagine estar no meio da graduação e, alguns meses depois, assistir às aulas em francês, trabalhar em laboratórios de uma universidade europeia, conhecer estudantes de diferentes partes do mundo e descobrir uma nova forma de enxergar a Engenharia de Alimentos — e a própria vida.
Foi essa a experiência vivida por Ana Paula Sell e Beatriz Baima Moreira, estudantes de Engenharia de Alimentos da UFSC que realizaram parte da graduação na França por meio do programa BRAFAGRI.
Nantes e Paris foram os destinos de duas trajetórias diferentes, mas que chegaram a uma conclusão muito parecida: o intercâmbio foi muito além da experiência acadêmica. Trouxe novos conhecimentos, culturas, amizades, autonomia e outras perspectivas para o futuro.
Tudo começa antes do embarque
Para Ana Paula, o intercâmbio não começou como um plano definido. A possibilidade estava presente desde que entrou no curso, mas ganhou forma depois de uma palestra sobre o programa de intercâmbio na Oniris, no final de 2024. A partir dali vieram as conversas com a coordenação, o estudo do francês, os documentos e o processo seletivo.
“Quanto mais informações recebíamos e mais conhecíamos essa oportunidade, mais vontade tínhamos de viver essa experiência. E, a partir daí, quando percebi, já estava estudando francês, reunindo documentos e enviando tudo o que era necessário.”
Beatriz, por outro lado, já carregava esse objetivo há bastante tempo.
“Sempre tive o sonho de fazer um intercâmbio. Quando descobri que a Engenharia de Alimentos permitia essa mobilidade, fui logo atrás e fiquei extremamente interessada.”
A escolha da França também tinha uma relação direta com sua formação:
“A França é uma referência mundial no setor alimentício, oferecendo várias oportunidades de crescimento profissional, além de ser o país com o maior número de acordos acadêmicos com o nosso curso.”
Mas o entusiasmo também vinha acompanhado de inseguranças. Ana Paula tinha receio de não conseguir fazer amigos, não se adaptar à nova rotina e, principalmente, de ter que resolver sozinha situações do cotidiano que, no Brasil, contavam com o apoio da família.
Beatriz também lembra do desafio de falar francês ao longo do dia, da adaptação a uma nova rotina e da saudade da família e dos amigos.
Meses depois, justamente enfrentar esses receios se tornaria uma das partes mais importantes da experiência.
Duas universidades, duas experiências de formação
Em Nantes, Ana Paula estudou na Oniris VetAgroBio e encontrou uma organização acadêmica bastante diferente daquela a que estava acostumada na UFSC. O calendário mudava semanalmente, as disciplinas eram organizadas em unidades e componentes e as aulas incluíam atividades expositivas, dirigidas e práticas.
Um dos aspectos que mais chamou sua atenção foi a presença constante de atividades práticas e trabalhos em grupo.
Um dos lugares mais marcantes foi o Hall de Technologie, uma estrutura que Ana Paula compara a uma pequena indústria de alimentos, com equipamentos que permitiam acompanhar diferentes processos de produção.
“Uma das experiências mais marcantes que tive lá foi um projeto em que fabricamos cerca de 40 litros de cerveja.”
Para ela, atividades como essa aproximavam a formação acadêmica da realidade profissional:
“Acho que essa foi uma das experiências que mais me marcou justamente por aproximar bastante a universidade da realidade industrial e mostrar como os conhecimentos que aprendemos ao longo do curso podem ser aplicados na prática.
Experiências práticas de Ana Paula na Oniris VetAgroBio, em Nantes, aproximando teoria, processamento e tecnologia de alimentos
A experiência de Beatriz na AgroParisTech, em Paris, teve características diferentes. Ela destaca a infraestrutura da instituição, os laboratórios e uma abordagem de ensino bastante conectada ao mercado empresarial.
“A abordagem de ensino é muito mais voltada para o mercado empresarial do que para a área puramente acadêmica, com disciplinas de gestão financeira e marketing que agregam um valor enorme para quem deseja gerir um negócio no futuro.”
Um dos destaques de sua trajetória foi um módulo de cosméticos realizado em Orléans, onde a AgroParisTech possui um centro voltado à pesquisa na área. A programação incluiu uma visita técnica ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento do grupo LVMH.
“Durante essa semana imersiva, realizamos uma visita técnica ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento do grupo LVMH, uma vivência prática inestimável.”
Beatriz durante sua experiência acadêmica na França. Entre as atividades, a estudante participou de um módulo de cosméticos em Orléans e de uma visita técnica ao laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento do grupo LVMH.
Nem mais fácil, nem mais difícil: diferente
As experiências das duas estudantes também mostram que não existe uma única maneira de comparar o ensino francês com o brasileiro.
Para Ana Paula, a principal palavra é “diferente”. Na Oniris, havia menos avaliações em cada componente e, consequentemente, menos oportunidades de recuperar uma nota baixa ao longo do semestre.
“Não diria necessariamente que o curso era mais fácil ou mais difícil, mas que o sistema exigia uma forma diferente de organização e preparação.”
Beatriz teve outra percepção na AgroParisTech. Para ela, o sistema foi mais acessível em relação às provas, com maior peso para trabalhos desenvolvidos continuamente em grupo.
“Esse formato força o estudante a pesquisar e buscar o conhecimento ativamente. Sinceramente, senti que esse método de avaliação favoreceu muito o meu aprendizado e me adaptei melhor a ele do que ao sistema tradicional.”
Duas instituições, portanto, proporcionaram experiências acadêmicas diferentes — e justamente essa possibilidade de conhecer outras formas de ensinar, aprender e trabalhar é uma das riquezas da mobilidade internacional.
E o francês?
As duas estudantes chegaram à França com certificação B2, mas descobriram rapidamente que uma prova de proficiência e a vida cotidiana são experiências bastante diferentes.
Ana Paula conta que as primeiras semanas foram um choque. Conversas rápidas e expressões desconhecidas tornavam a compreensão difícil. Até que, com a imersão diária, algo mudou:
“Parecia que, em algum momento, meu cérebro simplesmente deu um click. Aos poucos, comecei a entender as conversas ao meu redor com muito mais facilidade, sem precisar traduzir tudo mentalmente.”
A convivência com estudantes de diferentes nacionalidades também ajudou a diminuir o medo de errar:
“Fui percebendo que o mais importante era conseguir me comunicar, e não falar tudo perfeitamente.”
Beatriz também embarcou com o diploma DELF B2. A imersão aprimorou seu domínio do idioma a ponto de ela atualmente se preparar para o exame C1. Para quem pretende seguir o mesmo caminho, sua recomendação é começar a treinar a compreensão oral antes mesmo da viagem, incorporando jornais, podcasts e filmes em francês à rotina.
Muito além da sala de aula
Se os conhecimentos acadêmicos foram importantes, os dois relatos mostram que algumas das maiores transformações aconteceram fora da universidade.
Ana Paula, que antes de embarcar se perguntava se conseguiria se virar sozinha, voltou com uma percepção muito diferente sobre si mesma:
“Também sinto que o intercâmbio me deixou muito mais independente. Estar longe da minha família e precisar resolver sozinha situações do dia a dia me fez ganhar mais confiança e perceber que sou capaz de lidar com situações que antes poderiam parecer muito complicadas.”
Beatriz descreve uma transformação semelhante:
“Essa vivência me fez crescer de forma imensurável. Ganhei uma independência real, desenvolvi minha individualidade e sinto que de fato me tornei adulta.”
Um dos momentos em que percebeu essa mudança foi ao constatar que conseguia resolver problemas burocráticos e pessoais sozinha, em outro país e em outro idioma — inclusive quando ficou doente e conseguiu lidar com a situação de forma autônoma.
Para além da universidade, o intercâmbio também é feito de novas cidades, culturas, amizades e experiências que passam a fazer parte da formação – e das memórias – dos estudantes
“Como é que a gente veio parar aqui?”
Quando tenta escolher um momento que sintetize sua experiência, Ana Paula não aponta uma única aula ou viagem. Ela lembra das conversas entre os estudantes brasileiros quando, diante de situações às vezes muito simples, paravam para pensar na oportunidade que estavam vivendo.
Vieram a primeira neve, os mercados de Natal, as viagens, novos lugares e a construção de uma rotina que, pouco tempo antes, parecia muito distante.
“Às vezes, estávamos fazendo alguma coisa completamente simples e mesmo assim parávamos para pensar: ‘Como é que a gente veio parar aqui?’.”
Se tivesse que resumir toda a experiência em uma única palavra, Ana Paula escolheria “oportunidade”.
Beatriz também não hesita quando pensa na possibilidade de voltar atrás:
“Se eu pudesse voltar no tempo, faria tudo de novo mil vezes.”
A experiência despertou, inclusive, um novo objetivo: retornar à França no futuro para realizar um mestrado. Para ela, morar fora permitiu ampliar horizontes e conhecer de perto o funcionamento do mercado global, suas tendências e grandes empresas.
Para quem está pensando em ir…
Depois de meses vivendo outra universidade, outro idioma e outra cultura, as duas deixam mensagens bastante diretas para os estudantes que ainda estão em dúvida.
Ana Paula resume:
“Só vai. Se você tem a oportunidade, aproveite.”
E acrescenta:
“Se a dúvida for por medo, eu diria para não deixar o medo decidir por você.”
Beatriz segue na mesma direção:
“Para quem ainda está em dúvida se vale a pena encarar o desafio: vá sem hesitar. O intercâmbio é uma experiência única que transforma você não apenas como profissional, mas principalmente como ser humano.”